Há muitos gestos arquitectónicos, grandes e pequenos, que não são projectos de arquitectura. Vem isto a propósito da discussão lançada pelo Picuinhas, que voltou à carga, desta vez moderando o discurso, mas para reforçar a mesma ideia: a de que não se deve revogar o 73/73 porque arquitectura qualquer um faz.
Ora a questão é que há uma diferença entre fazer arquitectura e fazer um projecto de arquitectura. Fernando Távora disse há muitos anos, num encontro de arquitectos (ou seria congresso?) em Aveiro, mais ou menos isto: «... e a senhora que estende a roupa na varanda também está a fazer arquitectura», querendo significar que toda a gente faz, ou usufrui, ou participa na arquitectura. Aliás o fim último da dita é isso mesmo. Mas fazer um projecto é algo muito diferente, para o que só os arquitectos estão preparados.
Fazer um projecto é fundamentalmente organizar o espaço como um todo, interior e exterior. E o espaço tem várias dimensões, tem volume. Mesmo que fosse apenas planta a que se acrescentassem ou não balaustradas, colunatas e frontões (ideia que transparece do texto do Picuinhas, pois chama arquitectura de mau gosto à que tem ornamentação e de bom gosto à que não tem), mesmo aí o arquitecto faz melhor do que qualquer outro, precisamente porque sistematiza os desejos do cliente sem perder de vista o todo. E este todo já diz respeito a todos, não apenas ao cliente.
Da discussão lançada pelo Picuinhas, sobre a revogação ou não do 73/73 (em que têm participado vários blogues de arquitectura cujos links estão aqui ao lado), fica-me um amargo de boca: está demonstrado que os arquitectos se têm isolado progressivamente, perdendo-se em conversas herméticas sobre o próprio umbigo. De tal modo que não se consegue passar para o grande público esta ideia básica: a de que os projectos de arquitectura têm que ser feitos por arquitectos.
Tem que ser por decreto? Claro que sim, porque também foi por decreto que deixou de o ser.
O Picuinhas acha que não é a revogação do 73/73 que implicará mais qualidade arquitectónica, portanto não se revogue.
Eu acho que a revogação só por si não trará mais qualidade, mas é um passo imprescindível, portanto comece-se por aí.
O Picuinhas resolveu argumentar contra a revogação do decreto 73/73. Não vou aqui contra-argumentar exaustivamente, até porque O Projecto já o fez. Apenas sublinho que o picuinhas acha que arquitectura é o mesmo que engenharia mas com mais molho, com frontões, arquinhos e balões.
O Picuinhas está com a visão obscurecida. Ele que vá ao oculista (que lhe há-de receitar melhores óculos que o oftalmologista). Pode ir também ao curandeiro, ao enfermeiro ou ao farmacêutico... E não precisa de chamar um cientista para lhe apertar os parafusos, porque isso qualquer um faz.
É o que propõe o colega J. E. Santos em carta publicada no Boletim dos Arquitectos deste mês. Uma manifestação em que se exija a revogação do decreto 73/73, já que da resolução da Assembleia da República 52/2003 não se viram resultados.
Aplaudo.
Gostei de ouvir a Helena Roseta a defender (na SIC) que o projecto para o Parque Mayer devia ter sido adjudicado por concurso público. Só não percebi porque o fez na sua qualidade de deputada e não na de arquitecta e bastonária da Ordem (e frisou bem, era mesmo só a deputada que ali estava).