Esta imagem do Plano Estratégico de Lisboa é das mais hilariantes que já vi. Afinal a ideia é transformar Lisboa num pólo aglutinador seja lá do que fôr, por contraponto ao centro da Europa. Lisboa, século XVI, perdão, século XXI, capital do Atlântico.
Lembrei-me do livro «Pensar Lisboa» escrito por J. P. Martins Barata nos anos 80. Logo a abrir descreve uma fotografia nocturna da Europa, obtida do espaço. Por muito que nos custe, Portugal é a periferia das periferias e a orla marítima onde se situa Lisboa e outras cidadezinhas não passa de uma fraca lâmpada ao fundo do quintal.
O que me leva ao post anterior.
Escrito há 15 anos, o livro «Pensar Lisboa» continua com conteúdo actual. Nele se analisam as múltiplas causas que provocaram os problemas urbanísticos da cidade, que não é apenas o concelho e muito menos os bairros ditos tradicionais, mas a área metropolitana. O autor avisa que a doença se agravará e que não haverá curas milagrosas nem soluções concretas que não se insiram em acções de longo prazo. E relembra que a missão dos políticos é fazer política no sentido original da palavra e não no sentido partidário em que se transformou.
Contudo, quanto mais anos passam mais a ideia de cidade se resume a frases publicitárias ou visões eleitoralistas. As próprias campanhas eleitorais só prometem acções que possam ter resultados visíveis durante o curto mandato do político eleito.
Acções essas que podem ser a construção de um túnel rodoviário ou a realização de 3 congressos internacionais, porque o que interessa é que Lisboa esteja em todas.
O que me leva ao post seguinte.
...com um curso de Arquitectura
A Guida enviou-me para a caixa do correio este texto com o qual não posso estar mais de acordo:
«Quisera Alguém lá em cima e já há mais tempo me teria chegado a coragem para escrever no vosso blog. Há um tema que julgo essencial debatermos já que, como reparei, grande parte dos vossos leitores são estudantes ou estagiários, essa espécie em multiplicação assistida a que pertenço.
Por mais estranho que pareça eu sou das poucas estagiárias que não estou contra o número de estudantes de Arquitectura que anualmente invadem todas as faculdades. Talvez porque tirei o curso na Lusíada depois de não ter entrado para a faculdade do estado assim que a minha média do secundário desceu com um exercício errado (em quatro) no exame nacional de geometria descritiva. Eu sou a favor da oportunidade e sou contra guetos intelectuais que afastem o direito que o cigano ou o croata, a velhota do 'Triplet de Belleville' ou a tia 'himalaias de social' têm a viverem num abrigo inteligente.
Assim sendo, e posto o enorme número de estagiários no mercado, há que pensar em soluções em vez de chorar com o mundo às costas. A minha resposta a isso é DIVERSIFICAÇÃO. Há uma lista de soluções possíveis para que os arquitectos possam aliar a dignidade de um trabalho à sobrevivência 'com estilo'. Dando um exemplo concreto. Estou a estagiar num atelier de renome, apenas a receber a bolsa da PRODEP e por isso o meu salário é o que eu aprendo. E acreditem que há vários dias em que não aprendo nada, que são depois compensados por outros em que fico com pele de galinha perante respostas a problemas que julgava irresolúveis. Acontece que depois de vários dias faminta de algum conhecimento novo (sem ser a trabalhar em Archicad, a dobrar folhas ou a fazer maquetes) lá fui encaminhada para uma reunião com uma técnica da Imperalum. Já não bastava ser Segunda-Feira, chuvosa e com frio, não bastava saber que teria de trabalhar o fim de semana e que as férias ainda iam longe e ainda tinha que ouvir mais uma vendedora que nem se sabia bem qual era a sua formação. Talvez filha de construtor, gorda e com mau português, ou então engenheira da lã de rocha com curso tirado na Universidade do Futuro. A verdade é que para meu grande espanto a senhora Arquitecta sabia ao que vinha e ensinou-me numa manhã o meu salário da semana toda. E obviamente não poderia estar tão à vontade na matéria se não fosse do nosso ramo, e ainda para mais num projecto de autor como era o caso. A sua apresentação, linguagem coerente, à vontade na compreensão do projecto e disponibilidade intelectual e cultural puseram de parte todos os meus preconceitos perante a 'vendedora de lã mineral'.
Assim como especialistas em materiais inovadores, há ainda as áreas da escrita, o ensino (mesmo que seja para uma cadeira menos prestigiante que projecto), há ainda uma Europa inteira para explorar, a especialização no controle das obras, etc.
Vamos deixar o que ainda resta de um provincianismo luso que acha que os Arquitectos são uns mestres muito artistas e muita à parte da realidade, para pôr mãos à obra na construção de um futuro arquitectónico melhor. Vamos trabalhar para que daqui a uns anos os nossos vizinhos, filhos e amigos de outras áreas não achem que os arquitectos são só para os ricos e para que eles saibam distinguir coisas tão importantes ao comprar uma casa, como a importância da exposição solar ou o perigo dos lençois de vidro em pleno Alentejo. Ser Arquitecto é viver com estilo mas é principalmente trabalhar para que os outros tenham uma melhor apropriação de espaços.
Por isso não podemos andar com o mundo às costas, temos que andar com o mundo à frente!»